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Sono inadequado e doenças


O que as mais recentes pesquisas mostram sobre o efeito da falta de sono na diabetes, pressão arterial e obesidade, entre outros problemas!

Se você é daqueles que por algum motivo dormem pouco e mal, é bom arrumar rapidamente uma maneira de resolver o seu problema. De acordo com os últimos achados da ciência, um bom sono faz mais pela sua saúde do que simplesmenterecarregar a pilha para mais um dia de batalha. Só para ter uma idéia de seu impacto, tome como exemplo a última das mais recentes descobertas na área. Cientistas da Universidade de Yale, uma das mais respeitadas dos EUA, divulgaram um estudo mostrando que dormir de menos – ou de mais – aumenta o risco para diabete tipo 2. O trabalho está na edição deste mês do Diabetes Care, publicação da Associação Americana de Diabete.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores acompanharam a evolução da saúde de 1,7 mil homens durante 15 anos. Ao final, verificaram que os que dormiam menos de seis horas ou mais de oito horas por noite apresentavam chance significativa de sofrer de diabete. Por aqui, a pesquisa teve alta repercussão.

“É um estudo interessante. Existiam evidências da associação entre sono e diabete, mas o trabalho mostra que a duração do sono tem relação com a chance de desenvolver a doença”, afirma o médico Marcos Tambascia, presidente da Sociedade Brasileira de Diabete.



Há pelo menos uma explicação biológica para a associação: as mudanças hormonais causadas por alterações de sono estão relacionadas a uma maior dificuldade de o corpo aproveitar a glicose disponível na circulação sangüínea. Na verdade, essas alterações aumentam a resistência das células à ação da insulina, o hormônio que abre a porta das células para a entrada da glicose. O resultado é que sobra açúcar no sangue, o que caracteriza a diabete. Baseado no trabalho, o coordenador da pesquisa, Henry Yaggi, faz uma defesa enfática. “O sono pode vir a ser considerado um novo fator de risco para a enfermidade”, disse a ISTOÉ. Na opinião do endocrinologista Freddy Goldberg, da Universidade de São Paulo, é interessante que os médicos prestem mais atenção ao sono na hora de tratar de um doente. “Acho que teremos de incluir perguntas sobre isso no tratamento”, acredita.

Outro achado recém-divulgado diz respeito à relação entre o sono e a pressão arterial. Num estudo feito por italianos, ficou evidente que o aumento da produção de melatonina (hormônio que regula o sono) está associado à diminuição de pressão. A conclusão foi obtida após experiência envolvendo 18 mulheres com hipertensão que receberam doses extras da substância. Os pesquisadores constataram que essa adição fez cair os níveis de pressão arterial à noite, o que leva a sonhar com uma nova terapia que inclua pílulas de melatonina para controlar a pressão.

E quem poderia imaginar que dormir pouco é mais uma pedra no caminho de quem briga contra a balança? Essa é outra das descobertas recentes. Várias pesquisas mostram que há estreitas conexões entre a briga com o travesseiro, a saciedade e a vontade de comer. Uma delas é da Universidade de Chicago. Descobriu-se que poucas horas de sono produzem mudanças que podem levar ao aumento de peso. Isso porque o déficit interfere na fabricação de dois hormônios, a leptina, responsável pela sensação de saciedade, e a grelina, causador da impressão de fome. Quando se descansa pouco à noite, a leptina cai e a grelina sobe. “Essa é mais uma demonstração da importância do sono para o corpo”, diz a neurofisiologista Stella Tavares, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Mais dois estudos apontam outro prejuízo trazido por dificuldades para dormir. Os trabalhos, feitos nos EUA, indicam que a insônia piora a tristeza e a desesperança que caracterizam a depressão. Uma das pesquisas revelou que os doentes deprimidos com problemas para dormir tinham 17 vezes mais chances de continuar padecendo da doença depois de um ano do que aqueles que descansavam bem. O autor do trabalho, Michael Perlis, defendeu a idéia de que os médicos investissem mais no tratamento da insônia de seus pacientes para agilizar a recuperação da depressão.

Uma das áreas de investigação que mais crescem é a que joga luz sobre sono e memória. Já se sabe que, quanto pior o sono, maior a dificuldade para arquivar informações. “O sono não regenerador prejudica a aprendizagem e a capacidade de organizar pensamentos complexos”, explica Luciana Palombini, coordenadora do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O que se quer agora é aprofundar o conhecimento de como se dá a interação sono/lembranças. O neurocientista Sidarta Ribeiro está envolvido nesse esforço. Ele dirigirá o Instituto de Neurociência, a ser inaugurado em abril, e quer conhecer os detalhes da participação de dois genes na transformação dos registros dos fatos do dia em memória. Esse processo se dá durante o sono REM, uma das fases do sono caracterizada por grande atividade cerebral. Essa fase ocorre cerca de quatro vezes por noite. Imagens do cérebro nesses períodos mostram ação intensa no hipocampo, amígdala e córtex estruturas também relacionadas à memória.

Informações como essas resultam de uma nova e promissora ciência, a ciência do sono. No mundo, centenas de cientistas dedicam suas horas de trabalho a estudar o que acontece nas nossas horas de descanso. E fazem isso justamente porque verificam que dormir bem é fundamental para que o corpo funcione melhor. Por outro lado, o que se observa é que dormimos cada vez menos, e pior. Hoje, dorme-se uma hora e meia menos do que há 100 anos. E a qualidade do descanso é sofrível. Segundo levantamento do neurofisiologista Geraldo Rizzo, de Porto Alegre, um dos principais especialistas em sono do País, 52% dos brasileiros acordam cansados ou acham que dormiram pouco.

Preocupados com o quadro, os cientistas correm atrás de soluções para nos devolver um sono dos anjos. Felizmente, muito se tem avançado no tratamento das doenças do sono, entre elas a apnéia (interrupção freqüente da respiração durante a noite, o que prejudica a qualidade do descanso). Há dois meses, um trabalho divulgado pela Universidade de Cincinnati (EUA) informou que uma simples dose do remédio acetazolamida antes de ir para a cama diminui as crises da doença. Os doentes acordavam mais descansados do que os que foram medicados com placebo.

Há, ainda, uma solução prosaica, antiga, mas que cada vez mais tem o amparo da ciência: tirar a velha e boa soneca. Muitas pesquisas comprovam que cochilar é uma ótima saída para recuperar a energia. Um exemplo é o trabalho da Universidade de Harvard (EUA) com voluntários que tiraram cochilos de até uma hora e meia no meio da tarde. Eles mostraram melhores condições de aprendizado do que os que passaram o dia sem dormir. Baseados em informações dessa natureza, editorialistas da revista científicaThe Lancet defenderam, em edição recente, o direito de os médicos residentes darem uma dormidinha nos plantões. Segundo eles, só assim os jovens médicos têm mais cabeça para cuidar de seus doentes.

E quanto vale uma boa soneca? Em Nova York, exatamente US$ 14 (cerca de R$ 30). É o que muitas pessoas pagam para dormir por 20 minutos em uma cadeira no 24º andar do Empire State Building. E não é uma cadeira qualquer: é uma cama que tem como cabeceira uma enorme concha de onde flui um som relaxante. O acolchoado vibra, numa massagem que embala o freguês como os braços de Morfeu, o deus do sono. Na era do fast-food, estão vendendo a sesta rápida. Esta espécie de McDonald’s do sono chama-se Metronap. A idéia faz tanto sucesso que, neste mês, a companhia se mudará para o 22º andar, muito maior, com espaço para atender as cerca de 50 pessoas que por dia procuram as camas para descansar um pouco. E com as bênçãos da ciência.

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